Olívia Mindêlo
Uma zebra no transporte do material cenográfico do espetáculo Um conto idiota (SP), que iria encerrar a programação cênica do 13º Festival Internacional de Dança do Recife (FIDR), no sábado, tirou a força do último fim de semana do evento. Os bailarinos dirigidos pelo pernambucano Jorge Garcia, incluindo ele, vieram à cidade, mas não puderam subir ao palco do Teatro de Santa Isabel, porque a transportadora responsável pela carga da montagem não chegou em tempo. A encenação foi cancelada e o elenco teve que voltar a São Paulo ontem sem ter se apresentado. Foi uma frustração, haja vista a expectativa do público e da organização em assistir ao novo trabalho autoral de Garcia, um dos nossos retirantes da dança que alcançou êxito em sua carreira, sobretudo no Balé da Cidade de São Paulo, onde dançou por sete anos.
“O caminhão saiu no dia 11 (deste mês, oito dias antes da apresentação), foi feita uma logística e tudo, mas acabou que a transportadora ficou dois, três dias sem dar notícias. Pensávamos que tinham sido seqüestrados”, contou ontem a produtora da companhia Andrea Thomioka. De acordo com o coordenador geral do festival Arnaldo Siqueira, a empresa LCA Nordex, que já prestou outros serviços de transporte ao evento, informou que o caminhão com o cenário de Um conto idiota quebrou na altura de Feira de Santana (BA) e só iria chegar ao Recife hoje. Tarde demais. “Não tinha como o elenco ficar, porque na segunda (hoje) o grupo inicia o Circuito Sesc de Artes em São Paulo. O palco até estava pronto no Recife, mas não era possível fazer a apresentação, que depende muito do cenário, tem projeção e tudo. Quem sabe de uma outra vez”, lamentou a produtora do espetáculo, cuja relação com o teatro é bastante próxima.
A noite de sábado do FIDR contou apenas com a pré-estréia de um dos trabalhos aprovados pelo projeto O Solo do Outro este ano: O feminino e o meu olhar, no Teatro Hermilo Borba Filho. Dirigido e coreografado por Luiz Roberto da Silva, pernambucano que também passou os últimos anos fora do Recife, o espetáculo deixou um “gostinho de quero mais”, já que durou só 20 minutos. O solo é interpretado pela bailarina Renata Muniz (ex-Grupo Experimental de Dança), que faz do corpo um canal de expressão de todas essas mulheres que habitam a humanidade em seu cotidiano. Ela modela a massa do pão, tira e veste a roupa, preocupada com a opinião alheia, tem pequenos surtos diários, e depois deita com um camisão para ler um bom livro. As “insustentáveis sutilezas do ser” digeridas em doses homeopáticas entram em cena e ganham ainda mais dramaticidade por meio de um trilha que passa por nomes como Bjök e Tori Amos, sonoridades femininas que ajudam a reforçar o clima de intimidade em que o palco é transformado, como se a personagem estivesse sempre entre quatro paredes. O atraso de meia hora, causado pela reunião de avaliação do festival, que se estendeu mais do que o previsto no Apolo, não impediu que o espetáculo fosse aplaudido de pé pelo público que lotou o pequeno Hermilo. Para quem não viu, o solo pode ser conferido na quinta, no mesmo local.
Dificuldade de ampliar o público ainda persiste
Passava das 20h30 do sábado quando a organização decidiu encerrar, às pressas, a avaliação do 13º Festival Internacional de Dança do Recife, que já durava mais de duas horas no Teatro Apolo. Cerca de 50 pessoas, a maioria da classe artística, compareceu ao encontro, que suscitou discussões em torno de pontos recorrentes desde que o festival passou para as mãos da Prefeitura do Recife, há oito anos, mudando o seu perfil.
O público foi uma das questões tocadas, por exemplo, pelo avaliador do festival Giordani Gorki. “O evento se tornou reconhecido nacionalmente, mas gostaríamos que a verba fosse grande e os teatros ficassem lotados pela população local, não só por artistas”, criticou ele, que também reclamou da baixa presença dos próprios bailarinos nos encontros do Dança Falada e da Rede Sulamericana de Dança. O coordenador-geral do evento, Arnaldo Siqueira, afirmou que o público não variou em relação ao ano passado e que, até ontem, estava em torno de 5 mil pessoas. E é considerado bom? “Sim. Com exceção do Dia das Crianças, no Teatro do Parque, foi muito bom. Mas lá mesmo foram 800 pessoas assistir ao espetáculo dos argentinos. Foi ali que eu vi que a gente está no caminho certo. Não é só a classe artística que vai ao festival”, defendeu. De fato, quem foi ao Parque na quinta, para conferir o trabalho do coreógrafo argentino Edgardo Mercado, viu um público numeroso aplaudir de pé – com direito a gritinhos – duas apresentações (Tierra de Mandelbrot e Plano difuso) que mostram uma simbiose sofisticada (e não gratuita) entre dança e tecnologia. O jogo de ilusão operado pelo VJ foi tão primoroso que às vezes ficava difícil o espectador distinguir o bailarino das imagens dos vídeos que interagiam com ele na caixa cênica, durante a coreografia. Um trabalho difícil de ser realizado, e um dos mais interessantes do festival.
Contudo, no que diz respeito ao público dos demais dias, havia uma predominância visível do pessoal de dança, sobretudo do festival. “A gente não pode, como poder público, fazer o fácil. É importante que o público tenha acesso às novas linguagens, ao novo”, respondeu o secretário de Cultura João Roberto Peixe, também presente na avaliação.
De toda forma, mesmo apostando na linguagem contemporânea, outras edições do festival já viram uma recepção mais calorosa do público local. Talvez o período de eleições municipais, o atraso da organização ou mesmo a diminuição na quantidade de apresentações possam ter reduzido a repeceptividade. E o preço do ingresso, a R$ 5, não foi o empecilho desta vez.
O bailarino Marcelo Sena leu, durante a avaliação, um documento do Movimento Dança Recife, com várias críticas ao FIDR, incluindo questões como curadoria e falta de tratamento profissional aos artistas e grupos locais. Estes representaram nesta edição 30% da programação do evento, que contou com uma batalha de b-boys (ontem) e 22 espetáculos no total, tirando Um conto idiota, que não pôde ser apresentado. O orçamento foi de R$ 450 mil.
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